Trabalhos Ciêntificos

P S I C O L O G I A
NA PRÁTICA OBSTÉTRICA

ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR

Fátima Ferreira Bortoletti
Antonio Fernandes Moron
João Bortoletti Filho
Mary Uchiyama Nakamura
Renato Martins Santana
Rosiane Mattar


Editora Manole Ltda. São Paulo/SP, 2007

 

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Introdução

Nascer, Viver, Morrer...
Uma Visão Transcendental

Sebastião Saraiva*

 

A psicologia, inicialmente, era um ramo da filosofia consagrado ao estudo da "alma", sua história começaria com os primeiros sinais do pensamento humano, afirma Lima1; ela nascera no seio da filosofia e, por muito tempo, fora parte essencial dessa disciplina, afirmando-se como ciência após sua emancipação, o que se deve aos alemães. Embora seja difícil datar com precisão, parece que a "tomada de consciência", afirma o autor, ocorreu em 1860, momento da publicação dos "Elemente der Psychophysik", de Fechner.
Atualmente, continua Lima, a psicologia científica é entendida como o estudo que, baseado na observação e na experimentação, tem como objetivo as reações dos organismos completos às diversas condições do meio que os envolve. Portanto, é tarefa do psicólogo fazer variar sistematicamente as condições do meio a fim de trazer à luz as "leis" que regem as reações desses organismos. 

* Sebastião Saraiva é médico pediatra, especialista em Medicina Fetal. Formou-se em Medicina do Trabalho, Ultra-sonografia, Administração Hospitalar e Psicoterapia Dinâmica.

No nosso meio, no mundo moderno, os diferentes papéis delegados à mulher terminam sobrecarregando a gestante que, apesar de grávida, não se sente eximida de suas responsabilidades habituais. Esta situação de sobrecarga vem se constituir num importante fator adicional de estresse. Portanto, capaz de promover, por si só, algum grau de perturbação no equilíbrio psicológico da mãe e, conseqüentemente, do feto. A gestante apresenta-se como uma pessoa mais vulnerável pelo fato de já se encontrar submetida a um processo constante de significativas mudanças físicas e bioquímicas próprias.
Assim, parece lógica a necessidade da presença do psicólogo ao longo do período gestacional normal. 
No campo da Embriologia Clínica, segundo Moore & Persaud2 , o interesse pelo ser humano que se desenvolve, antes do nascimento, é muito grande, em particular por causa da curiosidade em relação às nossas origens e do desejo de melhorar a qualidade da vida humana; eles afirmam que os complicados processos pelos quais um bebê se desenvolve a partir de uma única célula são miraculosos, e, que poucas coisas são mais maravilhosas do que uma mãe observando seu feto durante um exame de ultra-som, assim como testemunhar a adaptação de um recém-nascido ao seu novo ambiente também é muito estimulante. 
O milagre da vida a partir de uma única célula tem fascinado, não apenas os cientistas, mas a todos que se dispõem a refletir sobre tal fenômeno. Também, chega a ser quase inimaginável como ocorre a diferenciação celular para a formação e funcionalidade dos ossos e medula, dos diferentes órgãos – cérebro, pulmões, coração, fígado, rins, pâncreas, baço – e dos anexos – unhas e pelos - no embrião. 
Semelhante maravilha se dá no processo de adaptação do recém-nascido a uma nova forma de vida. Aquele ser aquático, como num passe de mágica, transforma-se num ser terrestre. E esta transformação acontece sem qualquer "treinamento" prévio. Um fenômeno de extrema delicadeza e de grande significado para a vida de cada pessoa. Tudo ocorre num único salto. Num salto quântico!
Certamente, a adaptação satisfatória do recém-nascido está estreitamente correlacionada com o seu bom equilíbrio bio-psico-emocional ao longo da vida no ambiente intra-uterino. 
Logo, mais uma vez, a psicologia tem um papel relevante na promoção da melhoria da qualidade da vida humana, a partir do momento da concepção.
Sob a óptica da obstetrícia, o processo gestacional magistralmente sintetizado por Neme3, nos ensina que a instalação da prenhez é precedida por fenômenos complexos, biofísico-químicos, que ocorrem em seqüência e/ou concomitantemente, representados por: espermatogêneses; ovogêneses; ciclo mênstruo-endometrial; inseminação; capacitação, migração e reação acrossômica do espermatozóide; ovulação; captação ovular e fecundação; migração e nidação ovular.
O avanço tecnológico e a compreensão científica atuais fazem da obstetrícia o mais belo capítulo da atenção humana dentro da medicina moderna. O vocábulo "obstetrícia" (lat.obstare, permanecer ao lado) introduzido por Osiander parece ceder lugar ao termo "tocologia" (gr. tocos, parto; logos, estudo, tratado), pois, nos dias de hoje, a assistência à gestante é muito abrangente e, por isso, reclama a participação de outros profissionais – geneticista, ultra-sonografista, fetólogo, enfermeira, psicólogo, assistente social - a gravitarem em torno do titular, principalmente em se tratando de "Gestações Especiais".
No contexto de "Gestações Especiais" destacam-se duas situações fundamentais: a) gestante vítima de estupro; e b) gestação com alterações estruturais fetais. Nestas amargas circunstâncias a grávida exige um apoio psicológico suficiente e necessário para minimizar o impacto psico-emocional pertinente a essa dura realidade, a qual, quase sempre, atinge também outros membros da sua família. Para tanto, deve o psicólogo estar perfeitamente identificado com o problema e possuir um espírito científico-humanitário muito próprio. 
A obstetrícia, ao longo do seu processo contínuo de aprimoramento, engravidou e deu à luz a uma bela e sedutora filha – a Medicina Fetal -, um ramo da medicina que se ocupa, fundamentalmente, do desenvolvimento e do bem estar do feto. Assim, a gravidez tornou-se um estado verdadeiramente "interessante", como era apregoado pelos mais antigos. 
"Estado interessante" sim.
Interessante porque passou a despertar o interesse de todos pelo satisfatório desenvolvimento fetal, assim como o de oferecer à grávida todas as medidas de segurança necessárias e cabíveis a quem assume o papel de fiel depositária de uma nova vida. Esta denominação de "estado interessante" é sublinhada pelo fato de, tanto os profissionais da equipe quanto o casal e seus familiares poderem, através da ultra-sonografia, observar, contemplar e conhecer o bebê antes do seu nascimento. Para a mãe, esta experiência tem uma importância psicológica sem precedentes. Por fim, ela é capaz de constatar, visualmente, aquelas informações que antes (do ultra-som) eram simplesmente verbalizadas pela equipe – obstetra, psicólogo e enfermeiro.

Nos laboratórios de pesquisas sobre gravidez e recém-nascidos o aspecto psico-emocional do binômio mãe/filho vem, cada vez mais, recebendo atenção especial. Nathanielsz4*, afirma que como pais, o maior presente que podemos dar aos nossos filhos é uma vida saudável, e, que esta promessa não é tão absurda como pode parecer a princípio, uma vez que nas últimas décadas, pesquisas biomédicas determinaram de forma conclusiva que a interação física, hormonal e até mesmo emocional ocorridas entre a mãe e o feto ainda no útero têm um efeito concreto na saúde mental e física da criança por muitas décadas. 
Esta descoberta, segundo o mesmo autor, a mais importante vinda de pesquisas biomédicas desde a determinação da estrutura dos genes, é algumas vezes denominada "programação fetal" ou "as origens fetais de doenças em adultos".
Progressivamente, as comprovações científicas, no campo da obstetrícia, parecem incluir definitivamente o psicólogo como membro obrigatório na sua equipe multidisciplinar. 
A psicologia, como vimos antes, consagrada ao estudo da "alma", atingiu a maioridade e emancipou-se; ela se tornou independente da filosofia, mas guarda fortes traços genéticos de sua origem. A filosofia, segundo Pazzoli5 , é a atividade intelectual que se propõe refletir sobre os seres, as causas e os valores, considerados em seus valores mais gerais.
Por isso, a relação psicólogo e mãe/feto se constitui numa excepcionalidade, sob o prisma do relacionamento humano. É necessário não só compreender, mas sentir que o feto não é apenas um anexo da mãe, mas um ser humano que habita no seu interior físico, mental e espiritual.
Com esta visão holística, conclui-se que o psicólogo homem terá que se "amulherar", do ponto de vista psicológico, para assimilar os sentimentos presentes nessa complexa e sublime relação. Uma relação inigualável entre a fêmea grávida e sua cria; realidade específica do mundo feminino. A partir de então, haverá uma conexão favorável à sintonia psico-energética do trio.

* Peter Nathanielz é diretor do laboratório de pesquisas sobre gravidez e recém-nascidos da Universidade de Cornell. Atualmente vive em Ithaca, Nova York.

 

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Sobre...

“A História da Humanidade registra os movimentos de guerra em todos os momentos evolutivos das sociedades no mundo inteiro... Se tem sido possível formar batalhões destrutivos baseados no egoísmo, talvez seja possível, mais razoável e humano compor legiões construtivas respaldadas no altruísmo”